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sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Vestígios
Era domingo. Todo ele. Os velhos tempos de domingo. A mesa posta em casa vazia. E era linda aquela casa cheia de ausências. O chão frio. Sujo de terra, aparava o mato esquecido de um dia. Tudo era assim: tudo era um dia. A vidraça encardida escondia a família. Eram velhos que sabiam resmungar, de todo o coração, era assim família.
E por ser família, sabia ser feliz.
[por vezes, busco no retrato de cabeceira, um pouco de gravidez que me faça ninar em cantiga de sereia o Era uma vez]
sábado, 27 de novembro de 2010
só de olhar para ele
"Ele não é mais o mesmo" e era esse o meu medo.
Quando cheguei na casa de praia, toda a vaidade do mundo já não era bem quista há algum tempo. Ele havia deixado de lado as golas esporte, dando espaço para o pijama velho - presente do Natal de 98.
O dono da casa, agora, precisava de ajuda para ir ao banheiro. Era humilhante demais, repetia ele. E eu, na tentativa de amor, explicava que família era isso. Que amor era isso. E que isso, era o que mais tínhamos no bolso esquerdo.
Passei a notá-lo.
Os ombros se tornaram tímidos, na tentativa de me olhar. As mãos trêmulas, antes escondidas do que poderia se chamar doença, esticavam os dedos em direção às minhas. Era quase uma alegoria, um rito de passagem. Todas as histórias mil que ele adorava contar quando sentávamos juntos na varanda, agora eram reclamações. O cachorro que latia alto, a tampa da panela perdida ou o cabelo da nova "presidenta". E eu, já na saudade por dentro, sorria de antemão o que já era de se esperar. E no final de tudo, caíamos na gargalhada. Minha mãe dizia: "tudo louco, tudo louco".
Dessa vez, não foi diferente. Até a hora de ir embora.
Ele me pediu segredo. Pediu que eu cuidasse dela. E se desculpou por toda a doença do mundo. Disse que queria ficar mais, mas a dor era inevitável. Doía até os ossos. E isso, ele não queria mais.
Disse que entendia a "ânsia que os cristãos sentiram quando jogados aos leões". E ele, sequer cristão era.
Num egoísmo só meu, pedi que ficasse mais.
Quando cheguei na casa de praia, toda a vaidade do mundo já não era bem quista há algum tempo. Ele havia deixado de lado as golas esporte, dando espaço para o pijama velho - presente do Natal de 98.
O dono da casa, agora, precisava de ajuda para ir ao banheiro. Era humilhante demais, repetia ele. E eu, na tentativa de amor, explicava que família era isso. Que amor era isso. E que isso, era o que mais tínhamos no bolso esquerdo.
Passei a notá-lo.
Os ombros se tornaram tímidos, na tentativa de me olhar. As mãos trêmulas, antes escondidas do que poderia se chamar doença, esticavam os dedos em direção às minhas. Era quase uma alegoria, um rito de passagem. Todas as histórias mil que ele adorava contar quando sentávamos juntos na varanda, agora eram reclamações. O cachorro que latia alto, a tampa da panela perdida ou o cabelo da nova "presidenta". E eu, já na saudade por dentro, sorria de antemão o que já era de se esperar. E no final de tudo, caíamos na gargalhada. Minha mãe dizia: "tudo louco, tudo louco".
Dessa vez, não foi diferente. Até a hora de ir embora.
Ele me pediu segredo. Pediu que eu cuidasse dela. E se desculpou por toda a doença do mundo. Disse que queria ficar mais, mas a dor era inevitável. Doía até os ossos. E isso, ele não queria mais.
Disse que entendia a "ânsia que os cristãos sentiram quando jogados aos leões". E ele, sequer cristão era.
Num egoísmo só meu, pedi que ficasse mais.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Dona Morte insiste
e eu resisto o risco de não tê-lo mais aqui.
hoje sou mais saudade do que ternura.
domingo, 1 de agosto de 2010
meu dolorido colorido
amei por tantos anos Kandinsky. e me esqueci desse amor. era lindo. tudo era pra Ele. e nada pra mim. eu não me importava com o peso da balança, nem o preço do café. era adolescente demais pra isso e boba por seus rabiscos. não eram sutis. disso me recordo bem, naquela inveja ao mestre. lembro também da primeira vez que toquei uma esferográfica vermelha em papel branco. o tanto que sangrou, anunciou implícito o que ali em segredo se fez. era tão inocente, mas já dispontava para o profano - esse, preso ainda nas vírgulas tortas na vontade de extrapolar por parágrafos inteiros. e nas horas santas, um altar para Ele. eu era mais da filosofia. amava os pensadores. e amava mais ainda quando eles tocavam a poesia. amava, na verdade, o toque de tudo isso.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
my Johnny Cash
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Carta ao pai
Há dias que penso nele. Penso com carinho. É da barriga que mais sinto falta. Há tempos procuro a palavra e me toco contra a ausência. Retrato que mancha a parede do meu coração. E não sai. É tinta-sangue que tu me deu. Pensamento umbilical que cerca os olhos. Procuro na barriga, na refeição mal-sucedida ou no fracasso do fim do dia. É da barriga que mais sinto falta. E é na falta que tu me faz que mais me dói. Tua voz rouca e prolixa te faz por línguas estrangeiras. Sem cadência, apenas doçura. Sou tua filha. Teus anos, roubo pra mim. Te faço história minha em lembranças de todos os tamanhos.
Guria de tudo, já fui cria. E a ti na régua, tirava-me as noites de sono. Engenhava-me no sonho dos números. Mas tinha segredos. E teus segredos nasceram comigo. Eram das letras que mais me importava. Números perdiam a rima, somavam e dividiam. Não brincavam de ciranda. Era exato demais para mim. E eu, sempre várias, eu sempre em Pessoa, prendi-me nas letras soltas. E tu se rendeu àquilo. Me deu a benção e os livros. Espumas que flutuaram nas tuas leituras e boiaram até mim. E juntos, nos tornamos boêmios: pai e filha num mesmo verso. Paidéia. Sempre noturno, ao hino da densa garoa que faz fumar a lua e ladram de tédio vinte cães vadios.
Nasci de um poema. Não era a mais bela, mas era parto. Meu primeiro amor, pai-espelho. Tuas discórdias não eram por mim; eram pelo o que refletia. Mesmo menina de tudo, tinha a tua pele em mim e teus traços eram meus (numa ordem avessa).
Tive espinhas. E para cada uma, expurguei o que mais era você. Te odiava por tanto amá-lo. Na memória, tenho-me ao pé do sofá. E na memória, era noite também. Com teus sapatos e olhinhos puxados, tu me olhava. De cartas na mão, jogando-as, embaralhando a visão e tcharan! Uma moeda que tu tirava da orelha. Eu era o teu cofrinho, sempre com moedas a tirar de mim. E dizia: papai é mágico. Era com orgulho, mais do que a engenharia, papai era o meu mágico e disso me bastava o dia. Batia palmas numa alegria sem problemas; numa alegria genuína, animal de estimação que te olha o dono num suspiro que alivia.
Era hora de dormir. Tu não me banhava. Era mamãe. Mas tu era carinho. O meu e de mais 8. Um do céu; outros todo terra. Semente que não morre nunca. Sede que não seca.
Tu nasceu com a primavera, mas me herdou o que tenho de melhor: o outono no peito. Sou mulher feita e menina do papai. Caio como quem tomba os sonhos, mas amo o que aqui mora em mim. Amo meu coração que bate aqui. Sabe pele? É sentimento que fica debaixo dela e se mistura. Com sangue. E é de sangue que pulsa o coração; se sai, pára. se pára, não bate e morre. Torna-se você. Carne e osso. Amor é isso. Está em mim no Era uma vez dos anos que não pertencem mais. Sente apenas. E sinto você pra mim.
Tua matemática exata nunca me provou o pra sempre. Meu coração não me escuta nunca; te quer por roubo. Roubar você pra mim e te plantar aqui. Na sombra que me refresca. Na vida que tenho por diante. E são anos que te quero ao lado. Te quero avô. Te quero história: em ditadura singular que só tu conhece, te aguardo de perninhas pra cima e toddy na mão. Te aguardo na esperança de ouvir tudo de novo. Passado a limpo; apenas a tua tinta nele. E teu Getúlio e tuas polícias. Tuas histórias de amor: estado novo; quero-te ânsia do que te faz vida. Sem tiro ao coração; sem palácio do catete. Sem nada do que morra ao suicídio de tua bala.
Quando te lembro, me vejo. Diferente do que tu desenhou, do que esperava pra si. Não sou perfeita. E mamãe custa a me lembrar sempre. Mas tenho pés e mãos. Tenho cabeça e coração de titã. Sou tua criança que fala e anda. Sou tua criança que voou, mas não teme o ninho. A origem estrangeira. A falta de glossário.
Sou teu pesadelo mais lindo; de tatuagem ao que risca na promessa de que nunca se faz verbo. Sou a falta de doce de teus olhos e do tamanho de um botão pra me levar ao bolso. Sou tua menina de carne e osso. Mais carne do que osso. Uma história a continuar linda por entre os anos que nascem, crescem e morrem e sempre nascem na primavera mais linda. Com as flores do meu jardim-vida.
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É aqui que faleço, na busca por minha barriga. Me deito e é de mim que sinto falta.
Guria de tudo, já fui cria. E a ti na régua, tirava-me as noites de sono. Engenhava-me no sonho dos números. Mas tinha segredos. E teus segredos nasceram comigo. Eram das letras que mais me importava. Números perdiam a rima, somavam e dividiam. Não brincavam de ciranda. Era exato demais para mim. E eu, sempre várias, eu sempre em Pessoa, prendi-me nas letras soltas. E tu se rendeu àquilo. Me deu a benção e os livros. Espumas que flutuaram nas tuas leituras e boiaram até mim. E juntos, nos tornamos boêmios: pai e filha num mesmo verso. Paidéia. Sempre noturno, ao hino da densa garoa que faz fumar a lua e ladram de tédio vinte cães vadios.
Nasci de um poema. Não era a mais bela, mas era parto. Meu primeiro amor, pai-espelho. Tuas discórdias não eram por mim; eram pelo o que refletia. Mesmo menina de tudo, tinha a tua pele em mim e teus traços eram meus (numa ordem avessa).
Tive espinhas. E para cada uma, expurguei o que mais era você. Te odiava por tanto amá-lo. Na memória, tenho-me ao pé do sofá. E na memória, era noite também. Com teus sapatos e olhinhos puxados, tu me olhava. De cartas na mão, jogando-as, embaralhando a visão e tcharan! Uma moeda que tu tirava da orelha. Eu era o teu cofrinho, sempre com moedas a tirar de mim. E dizia: papai é mágico. Era com orgulho, mais do que a engenharia, papai era o meu mágico e disso me bastava o dia. Batia palmas numa alegria sem problemas; numa alegria genuína, animal de estimação que te olha o dono num suspiro que alivia.
Era hora de dormir. Tu não me banhava. Era mamãe. Mas tu era carinho. O meu e de mais 8. Um do céu; outros todo terra. Semente que não morre nunca. Sede que não seca.
Tu nasceu com a primavera, mas me herdou o que tenho de melhor: o outono no peito. Sou mulher feita e menina do papai. Caio como quem tomba os sonhos, mas amo o que aqui mora em mim. Amo meu coração que bate aqui. Sabe pele? É sentimento que fica debaixo dela e se mistura. Com sangue. E é de sangue que pulsa o coração; se sai, pára. se pára, não bate e morre. Torna-se você. Carne e osso. Amor é isso. Está em mim no Era uma vez dos anos que não pertencem mais. Sente apenas. E sinto você pra mim.
Tua matemática exata nunca me provou o pra sempre. Meu coração não me escuta nunca; te quer por roubo. Roubar você pra mim e te plantar aqui. Na sombra que me refresca. Na vida que tenho por diante. E são anos que te quero ao lado. Te quero avô. Te quero história: em ditadura singular que só tu conhece, te aguardo de perninhas pra cima e toddy na mão. Te aguardo na esperança de ouvir tudo de novo. Passado a limpo; apenas a tua tinta nele. E teu Getúlio e tuas polícias. Tuas histórias de amor: estado novo; quero-te ânsia do que te faz vida. Sem tiro ao coração; sem palácio do catete. Sem nada do que morra ao suicídio de tua bala.
Quando te lembro, me vejo. Diferente do que tu desenhou, do que esperava pra si. Não sou perfeita. E mamãe custa a me lembrar sempre. Mas tenho pés e mãos. Tenho cabeça e coração de titã. Sou tua criança que fala e anda. Sou tua criança que voou, mas não teme o ninho. A origem estrangeira. A falta de glossário.
Sou teu pesadelo mais lindo; de tatuagem ao que risca na promessa de que nunca se faz verbo. Sou a falta de doce de teus olhos e do tamanho de um botão pra me levar ao bolso. Sou tua menina de carne e osso. Mais carne do que osso. Uma história a continuar linda por entre os anos que nascem, crescem e morrem e sempre nascem na primavera mais linda. Com as flores do meu jardim-vida.
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É aqui que faleço, na busca por minha barriga. Me deito e é de mim que sinto falta.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
ah! chico de minhas fases tantas...!
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde.
E a leve impressão de que já vou tarde.
E a leve impressão de que já vou tarde.
E a leve impressão de que já vou tarde.
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde.
E a leve impressão de que já vou tarde.
E a leve impressão de que já vou tarde.
E a leve impressão de que já vou tarde.
sábado, 24 de janeiro de 2009
menina-eu

Sinto falta das perninhas finas tagarelando entre a cozinha e a sala da casa antiga.
Sinto falta da cantiga de ninar e das equações de matemática que fiavam a minha maior dor de cabeça. Nada mudou: a equação da vida está diante de meus olhos: subtrai daqui, soma dali e divide tudo ao final. Apenas os móveis mudaram de lugar, a televisão velha deixou de funcionar e, o sofá que antes era preto, ganhou mais um lugar.
Sinto falta da menina de ontem que encarava tão simplesmente o 1 e 1 são 2. Escuto uma voz da cozinha gritando:
- Nanda, tá na hora de dormir. Escova os dentes e já pra cama, menina! Tira esse vestido e bota ele pra lavar!
- Ah, mãe... ...quero brincar só mais um pouquinho. Amanhã já é tarde e serei cinza igual gente grande.
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Miau
Eu amo de um jeito bicho, mansinho de gato. E de gato, me enrosco nas tuas pernas, te cuido felina e te sossego num dengo de amor só meu. ...
-
minha escrita é sintomática e dolorida. às vezes sinto demais. ou de menos. inconstância crônica do que sou e irrita. hoje? sou voyeur .
